A presença de especialistas no Simpósio de Foz

A presença de especialistas no Simpósio de Foz

Crédito da foto: Jean Pavão

O XXIII Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos contou com a presença de conferencistas e palestrantes internacionais e nacionais que trouxeram grandes contribuições ao público. O consagrado hidrólogo e professor da Universidade de Tecnologia de Viena (TUWien), Günter Blöschl, falou sobre um grande desafio urbano: as cheias em um mundo em transformação e a sócio-hidrologia. Segundo ele, na Europa haverá mais enchentes no futuro, e os grandes desafios são o desmatamento, a urbanização acentuada e a agricultura de compactação do solo, que têm influenciado no clima. A saída é o  planejamento e de longo prazo e gestão adequada dos recursos hídricos, na visão do professor. Autor de extensa produção científica, Blöschl é presidente da International Association of Hydrological Sciences e chefe do Instituto de Engenharia Hidráulica e Gestão de Recursos Hídricos, além de diretor do Centro de Sistemas de Recursos Hídricos da TUWien.

Já a conferencista inglesa Susanne Charlesworth, professora no Centro de Agroecologia, Água e Resiliência da Universidade de Coventry, falou da sua experiência em pesquisas em saneamento e drenagem. Citou estudos junto a favelas no Brasil e em campos de refugiados no mundo. Além de considerar a educação das comunidades como fundamental, a pesquisadora indicou que a drenagem sustentável é possível em ambientes de risco.

Um convite para pensar o futuro foi o tom da palestra de Carlos Tucci, professor aposentado do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e consagrado pesquisador em águas urbanas, modelagem de sistemas hídricos. Segundo Tucci, um dos pontos nevrálgicos e necessários no Brasil é unir as redes de águas pluviais e o esgoto sanitário para garantir a sustentabilidade do sistema. Ao discorrer sobre cidades inteligentes, citou o exemplo de Medellín, na Colômbia, que teve nos últimos anos grandes intervenções urbanas, que viabilizaram serviços e tornaram a cidade modelo para o mundo.

 

A participação da CPRM

O evento ainda contou com uma delegação de cerca de 30 pessoas do Serviço Geológico do Brasil – CPRM, que participou do Summit de Tecnologias de Monitoramento Hidrometeorológico. O órgão, ligado ao Ministério de Minas e Energia, trata das novas tecnologias via satélite para monitoramento hidrológico e da revitalização dos poços artesianos no Nordeste do País, entre outros temas. Segundo Frederico Cláudio Peixinho, chefe do Departamento de Hidrologia da CPRM, um dos principais desafios do momento é a integração de águas subterrâneas e superficiais. Um sistema de construção de barragens subterrâneas está em andamento para atender famílias do interior de Pernambuco. A CPRM ainda atua em várias frentes junto a organismos latino-americanos e vai participar da elaboração do Mapa Hidrogeológico da América da Sul.

 

Sabesp: lições da crise hídrica 

Os mais de 1.500 participantes do XXIII SBRH acompanharam ativamente a programação técnica-científica do evento. No dia 25 de novembro, os pontos altos do evento foram as conferências sobre cheias em um mundo em transformação, do professor Günter Blöschl (Vienna University of Technology), e sobre segurança hídrica no Brasil e no Mundo, de Benedito Pinto Ferreira Braga Junior (USP), diretor presidente da da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) e presidente honorário do Conselho Mundial de Água.

A pior crise hídrica da região Sudeste, enfrentada entre 2014 e 2015, exigiu uma pronta resposta da Sabesp em obras e investimentos. Considerada a quarta maior empresa de saneamento do mundo, abastecendo 28 milhões de pessoas com água e atendendo 22 milhões de pessoas com coleta de esgoto, a Companhia deflagrou ações estratégicas que hoje garantem segurança hídrica à região metropolitana de São Paulo. “Foram feitas obras em tempo recorde para aumentar a oferta de água, como a ampliação do Alto Tietê, transferência de rios e ampliação das reservações para dar mais resiliência ao sistema”, destacou Braga.

O conjunto de ações da Companhia incluiu também benefícios ao consumidor pela redução de consumo. “Hoje percebemos que houve uma mudança de conduta da população, que mesmo não recebendo mais os benefícios, segue consumindo menos água. Antes da crise, cada habitante utilizava 169 litros por dia, volume médio que hoje é de 128 litros diários,” informou. As novas obras da Sabesp mantêm o foco na segurança hídrica, como a transposição que beneficia o Sistema Cantareira. “A despoluição de rios, como o Projeto Tietê, deflagrado em 1992, e o atual Projeto do Rio Pinheiros pretendem devolver à população, em bom estado, as referências hídricas que foram sacrificadas pelo crescimento urbano. A chamada mancha de poluição já recuou de 530 km para 122 km, mas a condição do Tietê e do Rio Pinheiros ainda é ruim. As ações seguem e a responsabilidade é coletiva, envolve município, Estado e população”, concluiu o conferencista.

 

Uma reflexão sobre a complexidade hídrica no mundo

Hidro-complexidade: novo paradigma para os recursos hídricos foi o tema da conferência proferida pelo professor Francisco de Assis de Souza, da Universidade Federal do Ceará, no dia 26 de novembro. A palestra reuniu 500 pessoas durante o XXIII Simpósio Brasileiro de Recursos Hídricos.

Uma plateia atenta, formada em sua maioria por especialistas, professores e estudantes de áreas da engenharia, acompanhou a explanação do professor Assis. “Vivemos um momento de mudança, tanto da natureza quanto da humanidade. Saímos de um mundo de segurança, determinismo e previsibilidade para um mundo de incertezas,” afirmou. Ele esclareceu que a complexidade é um conjunto de elementos heterogêneos que estão inseparavelmente associados, entrelaçados como os fios de um tecido. “Isso impacta diretamente os recursos hídricos, pois o que existe hoje é um processo de coevolução entre o sistema natural e a sociedade. É um sistema socionatural.”

As múltiplas interinfluências nos recursos hídricos ocorrem nas escalas global, nacional, regional e local, em aspectos como infraestrutura, sustentabilidade, alocação, eficiência, colaboração internacional, distorções de mercado e gerenciamento de riscos climáticos. De acordo com o conferencista, a boa notícia é que esta nova realidade, mesmo complexa, é racional. “Temos condição de apreender essa complexidade”. Um dos desafios atuais é inserir fatores qualitativos dentro de modelos quantitativos, criando ferramentas de análise para mostrar os encadeamentos e mapear as inter-relações. Muitas tentativas de entender essa complexidade já foram feitas, mas falta uma síntese desses esforços. “Nosso cenário é transdisciplinar, mas até os nossos modelos de humanidade estão mal representados, desconsiderando nossa heterogeneidade, nossos conflitos e empatias”.

O professor destacou que quando simplificamos demais a realidade abrimos mão de representar o que verdadeiramente existe. “Precisamos ir além, ter menos vontade de controlar e mais de entender a realidade. A vida quer perseverar”, destacou. O conferencista dedicou a sua fala ao professor Rubem La Laina Porto, ex-presidente da ABRHidro, que faleceu em julho deste ano. Reconhecido pela excelência profissional por toda a comunidade da água, Porto deixou sua marca de equilíbrio e de forte comprometimento com o setor. “Continuo a dialogar internamente com o professor Rubem, mas a ausência de resposta – daquela resposta incerta que eu não posso prever -, deixa um vazio: a falta daquela complexidade que nos torna mais humanos.”                    

 

A visão de Oscar Cordeiro sobre a Gestão de Recursos Hídricos

Os grandes desafios na gestão de recursos hídricos foram tema da conferência do ex-presidente da Associação Brasileira de Recursos Hídricos, engenheiro Oscar Cordeiro Netto, atual diretor da Agência Nacional de Águas (ANA). No dia 27 de novembro, Oscar relatou os problemas que envolvem o setor, os instrumentos disponíveis para enfrentar esses desafios e abordou os caminhos para uma boa governança. As novidades propostas ao setor de saneamento nacional, que irão envolver diretamente a ANA, também entraram na pauta do conferencista.

Entre os problemas que afetam diretamente os recursos hídricos, ele destacou a falta de infraestrutura gerada pela rápida urbanização brasileira, que iniciou na década de 1950 e foi intensificada nas décadas de 1960 e 1970, trazendo um passivo em praias e rios, hoje poluídos. O especialista afirmou que 80% da população nacional vive a menos de 100 km do Oceano Atlântico. Os desequilíbrios entre oferta e demanda no País também são grandes: a Amazônia concentra 74% da disponibilidade de água nacional, mas abriga apenas 5% da população. “Metade do território nacional tem rios transfronteiriços”, lembrou. Os estados brasileiros compartilham água com 10 países, o que exige esforços para o entendimento sobre o uso e gestão.

Além dos fatores acima, a crise hídrica nacional é constante, mudando apenas de região, e os conflitos administrativos, políticos e de uso da água tendem a se acirrar. Mudanças climáticas e outras incertezas também afetam o cenário. O modelo de gestão descentralizada nacional – Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos – traz a necessidade de integração federativa e fortalecimento dos Estados, pois muitos trazem políticas públicas frágeis.

Na busca pela boa governança dos recursos hídricos, Oscar Cordeiro Netto salientou a importância de assegurar capacidade tanto de recursos humanos quanto financeiros nos Estados, fortalecer o arcabouço de monitoramento do setor, fomentar a interação com os municípios, promover a governança de bacias e sistemas hídricos voltada para resultados e uma contínua capacitação dos gestores, dos usuários, dos agentes do poder público e dos representantes da sociedade.