IV SBHSF chega ao fim celebrando saberes tradicionais e debatendo o saneamento na bacia

IV SBHSF chega ao fim celebrando saberes tradicionais e debatendo o saneamento na bacia

Chegado o terceiro dia da quarta edição do Simpósio da Bacia Hidrográfica do rio São Francisco, os participantes mergulharam nos ensinamentos da sabedoria popular e do conhecimento de povos originários e ancestrais. Na última sexta-feira (16), especialistas do Brasil e do mundo discutiram também a importância do saneamento na bacia na direção de uma gestão sustentável dos recursos hídricos. O encontro, que aconteceu em Belo Horizonte entre os dias 14 e 16 deste ano e contou com cientistas de diversas áreas do conhecimento humano, terá sua quinta edição em Salvador, capital da Bahia.

O último dia de simpósio começou com a reflexão sobre o papel da Educação Ambiental como ferramenta de transformação. Marcos Callisto, professor da UFMG e educador ambiental, trouxe a perspectiva da “Ciência Cidadã”, que procura reunir os conhecimentos acadêmicos com a participação popular no sentido da formação da consciência ambiental. “A ciência cidadã aposta no envolvimento da sociedade em práticas científicas, promovendo a efetiva participação das populações urbanas no exercício da prática da cidadania cientifica”, conta Marcos. A metodologia do grupo de trabalho do professor adapta a base acadêmica científica para uma linguagem que possibilite o engajamento popular a fim de garantir a validação metodológica das atividades realizadas, de forma que as investigações e medições realizadas sejam científicas e promovam não só a aprendizagem, como também o despertar da consciência para a preservação e recuperação do meio ambiente. “Enquanto as crianças fazem as investigações e medições, elas vão tomando consciência e vontade de se engajar nas mudanças necessárias”, afirma.

“Amarraram o rio com cimento”

Juracy Marques, professor da UFBA e Coordenador do movimento “Salve as Serras” abriu a primeira mesa redonda do dia divulgando a realidade dos povos originários e de terreiro. Ele começou contestando a ideia de que é preciso levar “desenvolvimento” para um sertão “pobre”. “Pobreza não é um fato natural, é um projeto político, de poder. Na verdade, as barragens destruíram todas as cachoeiras do rio São Francisco, que são espaços sagrados para os povos tradicionais. O rio não é só água. Há quinze anos, pajé Armando, que se encantou recentemente, disse, olhando para as barragens hidrelétricas: ‘Meu filho! Agora eu entendi tudo. Amarraram o rio com cimento. Só tem uma forma de devolver a vida ao São Francisco: tirando essas paredes de pedra’. Hoje, nos EUA, já foram desmanchadas mais de mil barragens. Na Europa, quase quatro mil. E lá, a discussão nem é ambiental, é econômica”, enfatiza. Juracy lembra que os povos indígenas não são os únicos prejudicados por uma lógica de sociedade destrutiva: os povos de terreiro, pessoas negras de candomblé e umbanda, estão extremamente invisibilizados segundo ele. “O CBHSF precisa olhar para esses povos com mais atenção e carinho. Dos grupos tradicionais, eles são os mais invisibilizados, e são aqueles com talvez a maior potência para cuidar do rio, uma vez que, para em sua cosmovisão, o São Francisco é uma força muito especial: o rio é Oxum”, conta.

Patrícia Medeiros, coordenadora do Laboratório de Ecologia, Conservação e Evolução Biocultural da Universidade Federal de Alagoas, conduziu sua fala a partir da abordagem das “Plantas Alimentícias Não Convencionais” (PANC). Para explicar a importância de uma alimentação diversa, ela compartilhou a informação que 50% da nossa alimentação é baseada em arroz, trigo e milho, e isso exclui plantas alimentícias silvestres com seus benefícios nutricionais, ecológicos e socioeconômicos. Para ela, isso é “consequência da lógica do agronegócio, que investe todos os recursos apenas nos produtos mais lucrativos, construindo grandes monoculturas como é a do açaí, por exemplo”. Outro fator que impede a alimentação diversa é a mobilidade socioeconômica. Patrícia trouxe a realidade de pessoas que, a partir da melhoria econômica que elas experimentaram a partir de políticas públicas como o Bolsa Família, puderam adquirir alimentos convencionais que não tinham tanto acesso e abandonaram os alimentos não convencionais. No entanto, ela acredita que “plantas alimentícias silvestres terão um papel-chave em futuros cenários climáticos desfavoráveis”, em que a cultura de alimentos convencionais sejam mais difíceis ou mesmo impossíveis em grande escala diante de mudanças climáticas globais.

Maciel Oliveira, presidente do CBHSF e mediador da mesa, celebrou o fato de o simpósio divulgar os saberes tradicionais. “Ouvimos muito do conhecimento científico, aprendemos, mas quando o FIENPE trouxe esse tema eu achei extraordinário valorizar o conhecimento tradicional e popular”. Conectado com a palestra da Patrícia, Maciel lembrou que alguns produtores rurais destruíram plantações de cajá para plantar cana de açúcar e que, agora, estão fazendo o contrário ao constatarem o valor econômico desse alimento não convencional. Juracy trouxe o olhar das vozes das comunidades conflitos no Baixo São Francisco com algumas comunidades quilombolas sendo expulsas de seus locais, inclusive com autoridades colocando carro de som falando que “o tronco vai voltar”.

“Energia limpa se mede em ‘N’egawatts”

À tarde, as discussões sobre a importância do saneamento para a preservação do rio São Francisco foram protagonistas. Eduardo Lucena professor e pesquisador da UFAL e membro do GT de Saneamento do CBHSF informou que, no meio rural, sistemas individuais de tratamento feito por fossas agroecológicas são mais eficientes devido à distância entre as moradias, além de serem de baixo custo. Segundo ele, o valor para construir uma dessas fossas varia entre 4 e 15 mil Reais. Eduardo mostrou o envolvimento e a satisfação de habitantes das comunidades onde essas fossas foram instaladas através de ações do CBHSF no Baixo São Francisco, lembrando que a academia precisa estar mais próxima da realidade da população para entender suas demandas e atuar de forma mais efetiva no próprio ambiente onde essas comunidades estão inseridas. “Nós acadêmicos às vezes esquecemos dessas realidades próximas. Mesmo para a construção dessas fossas agroecológicas, é necessário entender as especificidades do local em que vamos atuar para que não afetemos o lençol freático, por exemplo. Precisamos nos envolver mais em projetos de extensão”, finalizou.

Em seguida, Asher Kiperstok, professor aposentado do Programa de Engenharia Industrial, retomou as discussões do segundo dia de simpósio, em que se falou sobre a transição energética, para, categoricamente, dizer: “Não existe solução sustentável para os problemas ambientais que temos”. Segundo ele, a “tal sustentabilidade” é uma utopia inalcançável e que “mitigação é conversa para boi dormir”. “Na melhor das hipóteses, ‘sustentabilidade’ é apenas a oportunidade de diminuir os impactos ambientais até que se ache uma solução verdadeiramente sustentável”. Para ele, a redução de impactos ambientais no setor de energia passa, necessariamente, por não consumir energia. Ele propôs um exercício muito prático: pediu que fossem desligando as luzes do ambiente uma a uma, enquanto contava quanta energia se economizava a cada desligamento. Ao final do exercício, concluiu: “energia limpa se mede em ‘N’egawatts. ‘Mitigação’ da tragédia climática é conversa pra boi dormir, ou a gente faz uma mudança radical já ou não teremos tempo de agir pela mitigação.”

Miriam Amaral, Coordenadora do grupo de estudos de aplicações de processos de separação na UFMG, focou sua participação na discussão do reuso de água nas indústrias. Ela informou que, apesar da realidade de escassez hídrica na bacia do rio São Francisco, a demanda por consumo tem aumentado. Segundo ela, entre 2010 e 2016, essa demanda aumentou em 87%, sendo que, entre os usuários de água, a irrigação é o mais demandante, correspondendo a 79% da demanda. Nesse cenário, o reuso é, para Miriam, uma ação essencial. “Entre os benefícios do reuso, temos a conservação da água, a redução da disposição de efluentes no rio, maior equilíbrio no sistema hídrico e sustentabilidade ambiental”, conta. Para isso, Miriam apresenta diversas técnicas de filtração de efluentes, como ultrafiltração e osmose inversa, utilizando como exemplo o reuso nos processos da mineração. Dentre eles, o efluente do processo de oxidação sobre pressão (POX) pode recuperar o ácido sulfúrico utilizado no processo, bem como os metais presentes no efluente. Segundo ela, “o licor de metais resultante da filtração possui valor econômico, ou seja, pode ser comercializado, podendo, juntamente com o ácido sulfúrico, também ser reutilizado”. Além disso, o reuso do efluente e a redução da geração de lama contribui para a redução da disposição de resíduos em barragens de minério.

Ricardo Aguiar, Coordenador Editorial da Revista Brasileira de Engenharia de Barragens, foi o último palestrante do simpósio e compartilhou diversas soluções em barragens para os desafios da Bacia Hidrográfica do rio São Francisco. Ele utilizou o Plano Diretor de Recursos Hídricos da bacia para demonstrar como os diferentes problemas hídricos de cada região, indicando possíveis soluções com variadas formas de construção de barragens, afirmando que “o patrimônio natural é uma ferramenta de sua própria recuperação”. “Nossos problemas estão cada vez mais complexos, o que demanda de nós que dialoguemos com diferentes áreas de conhecimento. Diques galgados permitem a passagem da água em tempos de chuva, mas consegue reservar uma pequena quantidade de água. Diques fusíveis são barragens que, quando são expostas a uma grande quantidade de água, ele é levado, ele é feito para isso. Diques submersos servem para áreas do rio onde não há mais inundação das regiões marginais, podendo atuar nesse alagamento, tão necessário para o ecossistema. Enfim, é preciso conhecer a fundo qual é o problema para que possamos pensar em soluções específicas para cada região que sejam mais eficientes”.

Simpósio uniu o conhecimento acadêmico e o popular

Maciel Oliveira, juntamente com Yvonilde Medeiros encerraram o IV SBHSF com o anúncio de que a próxima edição do simpósio ocorrerá em Salvador/BA em 2023. O anúncio foi recebido com alegria pelos participantes. “Este é o momento de agradecer a todos, especialmente à FIENPE, à Agência Peixe Vivo, à TantoExpresso e a toda a diretoria do CBHSF que abraça o simpósio e que financia o evento no entendimento de que isso é um investimento na produção de conhecimento. O simpósio cumpriu seu papel de que se pudesse conhecer o que está sendo pesquisado na bacia. Buscamos valorizar tanto o conhecimento acadêmico quanto o popular e já estamos pensando no V SBHSF, que vai ser em Salvador”, celebrou Maciel. A professora Yvonilde recebeu a tarefa de preparar a próxima edição na capital baiana e agradeceu por essa escolha. “Agradeço pela acolhida da sugestão de Salvador. Vou contar com o apoio de vocês! Salvador é uma cidade muito linda, mas quero ver vocês no auditório. Este simpósio foi maravilhoso. Vimos conhecimentos que certamente vamos utilizar no comitê, visando o aprimoramento do nosso PDRH e sempre contribuindo para a nossa bacia e para o Brasil”, finalizou.

Ao final, o simpósio contou com 114 trabalhos científicos inscritos, dos quais 101 foram aprovados e serão publicados nos anais do evento. Foram 6 palestras e 6 mesas redondas para mais de 200 pessoas inscritas.

 

FONTE: https://cbhsaofrancisco.org.br/noticias/novidades/iv-sbhsf-chega-ao-fim-celebrando-saberes-tradicionais-e-debatendo-o-saneamento-na-bacia/